Memórias escritas

Revi a lista mental de objectos que não podia esquecer, pensei nas paragens que ainda teria que fazer pelo caminho. Peguei na mochila, computador, mala, chave de casa, chave do carro, telemóveis, carregadores, não podia esquecer os carregadores... encher o depósito de gasolina, passar pelo supermercado. Confirmar a morada, colocar o GPS, dizer-lhe que estou a caminho.
Parar. Respirar.
Vai acontecer, finalmente, vai acontecer.

“Adoro-te”, li a palavra mil vezes, outras mil a escrevi. Era sincera, verdadeira e tudo me dizia que assim continuaria a ser, uma simples palavra que me dava tantas certezas.
Liguei o carro, sorri, respirei fundo novamente e fiz-me à estrada. Estava nervosa, muito nervosa, estava prestes a conhecer o rosto que durante aqueles meses não saiu do meu pensamento.
Tive medo do que iria sentir, do que ele iria sentir. E se não fosse certo? Se não nos entendêssemos? Se foi tudo uma ilusão? Ri de mim própria, que seria de mim sem as constantes dúvidas? Tão rápido como apareceram, desvaneceram-se no meu pensamento e voltei a concentrar-me no momento que tanto havia esperado, no momento em que tudo se tornaria real.
Estava cada vez mais próxima. Li a mensagem dele a dizer que tinha chegado, enviei um simples sorriso. Liguei-lhe quando já estava perto, muito perto. Cheguei, parei o carro e liguei-lhe novamente, disse onde estava, segundos depois vi-o a caminhar para mim. Não me lembro do que dizíamos. Sei que ele caminhou até mim, sei que me aproximei dele, sei que fiquei em dúvida sobre como o devia cumprimentar e parei, a poucos centímetros, esperando uma reacção. Por várias vezes falamos sobre isso, sobre como nos iríamos cumprimentar, as hipóteses eram tantas que não fazia ideia do que podia acontecer. Silêncio. Ele viu-me hesitar e logo agiu. Vi no olhar e no jeito dele o que iria acontecer. “Anda cá”, foi o que ele disse, uma expressão banal que para nós, para mim, tanto significava devido à quantidade de vezes que a dizíamos, devido ao contexto em que a dizíamos. Senti a mão dele na minha cintura. Senti-o próximo. Senti os lábios dele colados aos meus. Forte. Intenso. Demorado. Real.

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