Vidas

Queria ter mais tempo para ver.
Gosto de observar as pessoas, imaginar as suas vidas, desmistificá-las pelos gestos, pela forma de falar, pelo andar. Tenho saudades do tempo em que observar seria suficiente para conhecer realmente alguém, perdi o dom, distraí-me demasiado, deixei de ter tempo para ver.

Ontem tive tempo para percorrer ruas que me eram estranhas. Perdi-me na tentativa de captar todos os pormenores, desde os edifícios, aos jardins, às pessoas. Ficaram algumas memórias aleatórias... O pôr do sol nas margens do Mondego; o sorriso sincero da rapariga que notou que a observava do autocarro; o miúdo de 5/6 anos que tentava compreender a crise; a senhora que, de tão concentrada na leitura no metro, saiu uma paragem depois do que era suposto; a voz de anjo da rapariga que cantava na rua, em contraste com o som longuínquo do violino; o som do mar; o brilho da cidade à noite...
Houve uma rua em particular que me trouxe saudades, saudades de alguém que perdi, curiosamente, nunca estivemos juntos naquele local, ainda assim tenho certeza de que ele se lembrará de mim se passar por ali; o meu instinto foi o de tirar uma foto ao local e enviar-lhe, sem qualquer texto, sem qualquer mensagem, só a foto, controlei-me e não o fiz, não vale a pena trazer para o presente quem merece ficar no passado.

Quanto mais observo, mais tenho certeza de que os sorrisos mais sinceros provêm de pessoas com vidas complicadas, realmente complicadas, de pessoas que mostram uma força incrível, de pessoas que aproveitam cada segundo, que apreciam realmente a vida e os pequenos pormenores, as pequeninas coisas que ela tem a oferecer.

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