Horas

Os ponteiros já gastos do pequeno relógio de madeira, oculto pelos sorrisos forçados das mais recentes fotografias, percorriam o derradeiro caminho, temporalmente sincronizados com o ritmo da vida. Enchia o vazio da sala o, aparentemente desconcertado, tic-tac que abrilhantava a inexorável passagem do tempo. O silêncio não havia sido quebrado, o relógio da vida prosseguia, sem nunca abrandar o compasso, lentamente caminhando para o indeclinável final.
Quem dera a vida fosse um sonho em que é possível congelar os verdadeiros sorrisos, a verdadeira felicidade; quem dera a vida fosse um sonho em que é possível interromper a celeridade do tempo e prolongar, um pouco mais, os bons momentos, aquele momento, mas o tempo não espera e as despedidas não podem ser adiadas.
Olhei-o sabendo que era o fim e, ainda que contra o meu desejo, despedi-me, apesar de, no meu íntimo, conservar a esperança de o voltar a reencontrar.

*republicação; original de 15/01/2014 às 18h24

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