Reina nas ruas o silêncio devastador de fim de tarde que emoldura os poucos olhares que encontro pelo caminho. Olhares que parecem fixos nos meus passos. Demasiado indiscretos. Demasiado acusadores. Estou sozinha. Mesmo rodeada de pessoas, estou sozinha. A solidão é um sentimento injusto, porque nunca estamos verdadeiramente sós, mas, se assim é, porque a sinto, porque a mantenho comigo? Seria fácil pegar no telemóvel e falar com alguém, mas não é disso que preciso, não são palavras que me preenchem mas presenças, palavras apenas me iriam distrair e fazer esquecer, por momentos, aquilo de que realmente preciso e, por vezes, às vezes, só precisava de um abraço, só preciso de um abraço. Um abraço e uma certeza, uma certeza que já permanece dentro de mim, a certeza de que o destino sabe o que faz, a certeza de que as pessoas que aparecem no meu caminho vêm por uma razão, uma boa razão pois preciso de boas razões, preciso de pessoas que me acrescentem algo, não de pessoas que me roubem pedaços, porque pedaços meus ofereço a quem merece, não gosto que mos roubem, não gosto que me roubem. Não quero que me magoem, que me destruam, porque só eu sei o quão frágil posso ser, ainda que não o vejam, ainda que não o mostre. Recupero depressa das desilusões, mas a marca fica lá, como um espinho que parece ter saído, no entanto, quando mexo na ferida lembro-me de que está lá, e dói, dói como se o empurrassem novamente através da minha pele. Por isso permaneço sozinha, por isso não me mostro, por isso me assusto quando quebram as minhas barreiras, por isso fico apática quando tento não pensar, quando me quero deixar levar, por isso tenho medo quando me entrego, por isso prefiro seguir sozinha, mas às vezes, só às vezes, faz falta, como faz falta um abraço...

*republicação

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