A inconstância da Vida

É fácil relembrar o passado, para além dos bons, os maus momentos que, um dia, nos fizeram soltar um misto de sentimentos que, ainda hoje, não conseguimos e tememos nunca conseguir perceber. Aceitamos esses momentos porque não tivemos possibilidade de escolha ou porque houve interesses que se sobrepuseram à conquista da felicidade, da nossa felicidade. Reunimos todas as nossas forças na tentativa de compreender o que nos rodeia ainda que, na maior parte das vezes, nem nos apercebamos disso. Aceitamos o destino após inúmeras tentativas de o mudar, após inúmeras situações que nos fazem acreditar que, um dia, seremos capazes de decretar a nossa própria vida, o nosso próprio destino; no entanto surgem momentos que nos mostram que nem tudo é possível, que os sonhos que, um dia, idealizámos, serão impossíveis de concretizar e vemo-nos desfalecer, descartando a hipótese aparentemente absurda de desistir da conquista da felicidade quando, na verdade, já o havíamos feito ao desistir de tentar mudar o destino, ao desistir dos nossos sonhos. Provámos ao mundo que não somos dignos de o pisar, que, na verdade, não somos capazes de marcar a diferença, não fazemos nada para merecer a vida que nos foi oferecida, não somos capazes de viver porque temos demasiado medo das consequências dos nossos actos mesmo partindo do propósito de que não somos capazes de influenciar decisões. Somos contraditórios no que queremos, no que sentimos porque, na verdade, não sabemos ao certo o verdadeiro sentido da nossa existência nem fazemos qualquer esforço para o encontrar.

Aceitamos a vida, aprendemos a lidar com a morte mesmo não a aceitando totalmente. Chamamos de injustiça ao facto de alguém perder a vida quando realmente muitos nunca a tiveram porque nunca foram capazes de viver. Teoricamente, a vida não nos é retirada porque nunca foi nossa, apenas volta para o seu dono que no-la emprestou e é chegado o momento de a reaver, de pagar essa dívida que, nas adversidades, chegámos a preferir não ter contraído. Aprendemos a lidar com a nossa vida, aceitámos a nossa morte mas pomos em questão a dádiva dada a diversas pessoas que, por atitudes ainda não adoptadas pela sociedade - sim, não adoptadas, porque os tempos mudam e acabámos por aceitar coisas que condenávamos e considerávamos um ultraje – nos levam a pensar não terem direito à vida, aí chegámos ao ponto de lhes desejar a morte ao censurar a sua existência. Relembramos a morte de alguém que fez diferença na nossa vida quando ainda não a sabíamos possuir, relembramos a sua vida porque nos fez diferença a sua morte, porque só sabemos dar valor a algo quando efectivamente deixámos de o ter, quando deixa de fazer parte de nós, do nosso dia-a-dia.

Olhámos a vida de forma diferente quando nos apercebemos de que realmente podemos fazer a diferença, quando sentimos que a luta pelos nossos sonhos nunca é em vão, quando descobrimos que podemos mudar o destino, quando desvendámos o sentido da nossa existência, quando, finalmente, temos a certeza do que queremos, quando aprendemos a aceitar a morte e a aceitar as fatalidades da vida, então aí, é tarde demais. Há um fechar de olhos antes de termos oportunidade de desvendar os verdadeiros segredos que, ao fim de tantos anos, descortinámos. Isto acontece porque quando descobrimos tudo sobre a vida, esta deixa de ter interesse, deixa de nos criar obstáculos, deixa de nos ensinar e, por fim, deixa-nos, leva com ela a felicidade se, enquanto vivos, a procurámos ou a tristeza se a deixámos instalar-se e, por último entrega-as à morte que passa a ocupar-se de nós.

Na vida, há apenas um dilema que passa pela luta ou não pela nossa felicidade e que determina a vivência após a morte. A única pergunta que se impõe é se estás disposto a viver, se quando tudo acabar serás capaz de olhar para trás e dizer "valeu a pena", se a resposta é "sim", parabéns, encontraste a felicidade.

*republicação

3 comentários:

  1. Quase que me encontrava nas tuas palavras.
    Também já quase me entreguei à morte quando pensei que soubesse o sentido da vida.

    Ainda hoje procuro o sentido das palavras "ter medo de viver", para viver basta estar vivo, o andar em frente é obrigatório, mesmo que estejamos a recuar nunca será no tempo. Se hoje tens muito, talvez o destino te leve a não teres nada em vez de mais, o não teres fará com que dês valor a coisa que não davas.
    A vida é um grande mistério e é difícil pensar que a nossa morte será realmente o fim, que não existe mais nada, que seremos esquecidos, até por nós.

    Bem, o que me vale é que sei que vou chegar ao fim e saber todas as respostas

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    1. É isso que eu espero, chegar ao fim e descobrir todas as respostas... mas não acredito que a morte seja o "fim", tem que haver mais para além disto. De qualquer forma, um pedacinho de nós fica sempre aqui, com as pessoas que, de uma forma ou de outra, conseguimos tocar, portanto a morte nunca chega a ser o fim.

      A vida é realmente um grande mistério, resta-nos aproveitar cada segundo porque não sabemos quantos segundos mais nos restam, a qualquer momento tudo pode simplesmente deixar de existir.

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    2. Sim, a morte não é o fim e de alguma forma continuaremos vivos nas recordações dos vivos, mesmo assim, eles morrer e seremos esquecidos, claro, podemos fazer história, ou fazer algo que se perguntem quem foi que fez.

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