O sonho

Desde 2015 que as minhas visitas a este blog se tornaram escassas. Desde há muito que deixei de conseguir ler os textos aqui escritos, por conterem pedaços da minha história, de uma história que foi ganhando novo significado à medida que foi sendo escrita. Ainda que as palavras aqui ditas pareçam banais e genéricas, este sítio conta uma das fases mais importantes, desafiadoras e decisivas da minha vida, camuflando os acontecimentos por entre descrições de sentimentos, muitas delas, exageradas.

Durante algum tempo doeu-me reviver os maus momentos, mas também os bons, por me relembrarem de uma espécie de sonho que se foi desvanecendo e tornando menos e menos real, ao ponto de, em determinado momento, eu ter acreditado ser impossível de realizar (logo eu, a pessoa mais optimista e teimosa que conheço). Mas a vida tem a estranha capacidade de nos surpreender e de nos incentivar a continuar a apostar em algo que parece perdido, mostrando que o impossível não existe.

Hoje, aqui estou, no blog de onde nunca quis sair e onde pensei nunca voltar, relendo textos que me fazem recuar 5 anos e me fazem confiar na vida, no destino e na minha capacidade para lutar pelo que quero. E que nunca a vida nos deixe desistir de lutar pela nossa felicidade.

Da falta de amor

Deixa-me não compreender. Deixa-me não compreender os teus amores, essa tua noção insana de amar. Deixa-me condenar-te, criticar, apontar o dedo e incansavelmente chamar-te à razão, à minha razão.

Das voltas e rodopios que a tua vida dá, insistentemente, mantens o padrão, como se o procurasses, como se fosse um vício sem o qual desaprendes a viver. Como poderei eu falar-te de amores perfeitos se não conheces essa forma de amar, se não conheces outra forma de amar que não esse sentimento disfuncional que pareces ter escolhido para ti?

Já nem te incomodas em esconder as marcas, essas marcas que todos sabemos não ser de quedas. "Que desastrada eu sou", repetes incessantemente como se te quisesses convencer a ti própria. No fundo, é este o teu grito de socorro, o grito de socorro de alguém que não se deixa socorrer.

Ouço as notícias e rezo para que não sejam sobre ti, para que não sejas a número 11 deste ano, para que a tua existência não seja reduzida a um número e a um momento.

Mais um dia, mais uma denúncia e uma negação. Sou eu novamente a invejosa, a mesquinha, a que se intromete em casa alheia. E assim segues. Cansada. Perdida. Conformada.

Por isso deixa-me. Deixa-me, pelo menos, não te compreender.

Amanhã

Entrava em casa após um dia de trabalho, aparentemente mais longo que os demais. Não fazia contas às horas e entrava em sobressalto com as contas que lhe queriam fazer à vida. Repetiam-lhe vozes insistentes, banhadas na sabedoria de outros tempos, conselhos que ela não havia pedido. Faziam-na igual quando, no seu íntimo, sabia ser diferente, faziam-na criança quando lascas de maturidade se manifestaram desde cedo.

Sentia-se deslocada num mundo pautado pela falta de valores, pela falta de honestidade. Sentia-se refém da falta de princípios que, desde cedo, observara, obrigou-se a uma máscara de frieza, obrigou-se a desenvolver uma intuição apurada que lhe mostrasse em quem confiar, obrigou-se a ver. E o mundo que se manifestou diante dos seus olhos não era o que lhe tinham prometido.

Sabia-se longe do final feliz que lhe tinham vendido e próxima em demasia das provações da vida que lhe juraram apenas acontecer aos outros. Fosse outra a sua sina e talvez não trouxesse o mesmo sorriso nos lábios, falso diriam alguns, confiante num amanhã melhor assegurava ela.

Amanhã seria melhor. Só poderia ser melhor, certo? Certo!

Destino

Será a vida uma sucessiva série de coincidências que nos encaminha pela linha imaginária de um destino pré-traçado para nós?

Sou das que acreditam no destino, sou das que procuram os sinais do universo e segue-os, confiando que eles trarão o melhor para mim. Porque não haveria de confiar, se até hoje a sorte sempre me sorriu?

Mas, se acreditamos nesta predefinição de um destino, ser-nos-á possível afastar dessa linha e traçar um novo rumo? Acredito que sim... Assim vejo a vida, um destino ramificado que me pode levar por diferentes caminhos, diferentes vivências, diferentes pessoas.

Seja como for, a dúvida permanece a mesma: conseguiremos mudar o nosso final?

Páginas em branco

A páginas tantas perdi-me, por entre gestos, mudanças e rotinas.

Tantas vezes pensei voltar aqui e fui adiando, arranjando desculpas, camuflando a falta de vontade. Tantas vezes vim aqui começar textos que, ainda hoje, se mantêm inacabados. A culpa, na verdade, é da vida, que nos assoberba, que substituiu este hobbie por novos objectivos, por novos momentos, novas realidades, novas vivências, novos sonhos.

Tanto mudou, tanto mudei que um livro poderia escrever e, ainda assim, pormenores importantes seriam deixados de fora.

Acho que voltei, se assim o tempo me permitir, se assim a vontade deixar. Diferente, com quase mais 4 anos de vida às costas. E que vida... que jornada maravilhosa esta e que dia perfeito para viver.

Impasse

Dizem que "gostar de alguém também é saber deixar ir".

Às vezes pergunto-me se não seria melhor deixá-lo ir, mas não consigo fazê-lo. Ele também não quer ir, mas também não se compromete realmente a ficar. Vivemos neste impasse em que nos temos sem nos ter, somos um do outro não o sendo. Continuaremos assim, neste comodismo, neste conforto, até que um dos dois se decida a desistir.

Não gosto de pensar que a nossa relação tem um prazo de validade e julguei-o durante tanto tempo que me habituei à ideia de que te iria perder, mas agora que a validade se esgotou, ao ver-te aqui, ao meu lado, começo a acreditar que, talvez, não haja um fim. Deixei de acreditar num futuro em que este "nós" não existe, mas também não quero que fiques comigo porque te habituaste a ter-me. Quero que sejas feliz, que tenhas o privilégio de sentir por alguém o que sinto por ti e sei que não tenho o direito de te tirar isso, resta-me apenas a esperança de que esse alguém seja eu.


Continuarei a pensar se não estarias melhor sem mim, mas às vezes pareces ter tantas certezas que me fazes também acreditar um bocadinho mais em nós, sem o medo de me estar, novamente, a iludir.

Nuvens

Passei só para dizer que estou nas nuvens. Boa noite e obrigada :p